terça-feira, 25 de novembro de 2014

Conformismo | Subserviência | Medo

Conformismo

 Subserviência                   Medo


Ao tirar-se um instantâneo da sociedade portuguesa fica sempre a noção de que o conformismo é um dos 3 vergonhosos pilares que a sustenta. Os outros são a subserviência e o medo, os quais, obviamente, andam todos de mão dada.
Numa época em que nos acenam com o papão dos mercados, com a certeza da incerteza, com a precariedade instituída, mais vale, se calhar, contentar-nos com o pouco que nos resta. Fazer como o passarinho que saltita pelo asfalto em busca daquela migalha perdida e depois esvoaça para o ramo mais próximo, para cantar vitorioso mais um dia de alegre sobrevivência. Sim, sim… Mais vale ser como o passarinho, porque raposas já há por aí muitas e nós não temos matreirice suficiente para chegar a esse nível.
Ora, a secular teoria de que mais vale estarmos contentes com o que temos e não levantar muitas ondas é quase tão antiga como o próprio país e tem raízes numa religião que sempre incitou este tipo de comportamento, para na retaguarda ostentar a riqueza arrecadada pela perpetuação da miséria. Numa visão mais recente, sabemos que os 48 anos da longa noite apenas aprofundaram estes tipos de sentimentos nos portugueses. Nessa época, a cultura de subserviência foi aprimorada elegendo-se uma certa casta a que todos prestavam vassalagem e era um sem fim de Senhor Doutor para aqui e de Sua Excelência para lá. Incrivelmente, essa cultura persiste nos tempos que correm e é até adoptada por gerações mais novas, gerações nascidas da Liberdade, mas que se calhar nunca foram educadas sem grilhetas.
Durante a longa noite foi também tomando conta o medo. O medo do não haver para comer, o medo da constante perseguição, o medo dos ouvidos nas paredes e o medo de em cada amigo ter um bufo. Esta rede montada em regimes autoritários deixa semente e ainda hoje se vê que é desporto nacional a maledicência, a inveja, a cobiça...
E o medo continua à espreita em cada esquina. Porque podemos perder o emprego ou sofrer novo corte na reforma. Pode acabar-se o subsídio de desemprego ou terminarem com o Serviço Nacional de Saúde. O ensino universal e gratuito pode cessar e sei lá mais que monte de situações podem ser suscitadas pela sublevação das massas.
São estes medos que nos fazem subservientes e conformados com o estado de coisas. São estes os traumas que assombram o subconsciente nacional…
Recentemente, alguém me perguntava se eu tinha consciência que a organização para a qual trabalho era controlada pelo poder político; se era ingénuo a esse ponto... Respondi que apenas era ingénuo até ao ponto de ter plena confiança no meu profissionalismo e trabalho desenvolvido, e que não iria ceder a qualquer tipo de pressão que tentasse incutir-me o medo ou colocar-me numa posição subserviente perante quem quer que fosse. Resposta naïf, evidentemente. Mas a verdade é que esta conversa já decorreu há algum tempo... Ainda não me aconteceu nada; pelo que deduzo que, provavelmente, essa pessoa foi bater a outra porta, que de certeza se abrirá de par em par.
O chorrilho de represálias é infinito. Nós pensamos, refletimos, pensamos um pouco mais e chegamos à conclusão que se calhar mais vale ficarmos quietinhos. Bem ou mal, estes 40 anos de Democracia sempre nos trouxeram alguns “privilégios” (leia-se direitos). Será certamente mais seguro manter as conquistas obtidas, do que lutar pela possibilidade de acrescentar novos direitos. Esta forma de conformismo, que o é efetivamente, deve ser combatida, quer pela resistência interior, quer pela união de todos face ao flagelo da falsa noção de Liberdade, que nos enfardam dia após dia, por todos os sentidos adentro. Com a nossa resiliência poderemos conquistar novas bandeiras, ao invés de permanecer sofregamente agarrados às mesmas.
A verdade é que responsabilizamos as entidades competentes muito abaixo das nossas possibilidades. Reclamamos muito, mas invariavelmente mal. Esperamos sempre que um qualquer messias de dotes sebastiânicos nos retire do bueiro, para onde ele mesmo, numa outra vida, nos atirou. Mas, secretamente, sabemos que tal não vai acontecer... E continuamos presos na nossa revolta. Não saímos à Rua, nem exigimos responsabilidades. Indignamo-nos com o árbitro que “roubou” o penalti à Seleção, ao mesmo tempo que elegemos o autarca que “desviou” fundos do erário público, mas que até vai fazendo obra.
E se o país fechar? O último que apague a luz? Para onde iremos, cidadãos deste Portugal, tolhidos pelo medo, pela subserviência e pelo conformismo? Aí já não haverá tempo para alternativas. Já não haverá tempo para lutar. A austeridade não deixará pedra sobre pedra, do edifício do Estado Social. Aí será tarde demais. O Tempo é AGORA! E é Tempo de Avançar!!!

Montijo, 24 de Novembro de 2014
Miguel Dias
Membro da Assembleia do LIVRE
Subscritor da Convocatória da Convenção para uma Candidatura Cidadã
(www.tempodeavancar.net)

http://diariododistrito.pt/index.php?mact=News,cntnt01,detail,0&cntnt01articleid=2803&cntnt01pagelimit=10&cntnt01returnid=91

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Quando a Esquerda é esclarecida

Quando a Esquerda é esclarecida consegue discernir o que realmente interessa – o consenso em torno dos interesses da população. O diálogo e o compromisso são as armas do progresso. As pessoas certas sentadas a uma mesa redonda, com uma caneta e um papel à frente podem fazer acontecer impossíveis. Nessa mesma lógica, as pessoas erradas podem soltar infernos. Isso fará toda a diferença aquando das próximas legislativas.
As esquerdas têm de compreender, de uma vez por todas, que o interesse geral do povo é mais importante do que qualquer agenda de tacticismo político ou qualquer tipo de sectarismo. Dito de outra forma: as esquerdas têm de entender, que têm de se entender! O preço a pagar por esta falta de compromisso poderá ser demasiado caro, fazendo com que a maioria dos eleitores não o consigam suportar.
Os resultados são evidentes: uma possível nova maioria de direita, com mais quatro tenebrosos anos de austeridade, que já provou o seu fracasso na saída da crise; ou uma hipotética reedição de um Bloco Central, institucionalizando o bipartidarismo, que muito provavelmente teria uma maioria de 2/3, necessária para alterar a Constituição da República Portuguesa – a tal que tem sido a garantia de que esta espécie de massacre nacional não tenha ido mais além.
As esquerdas têm de entender que o falhanço do compromisso e do diálogo não será tolerado pelo eleitorado, que há tempo demais aguarda por uma solução de Esquerda para o Governo nacional. Se a isto somarmos a hipótese da mesma ser ampla e plural, isso trará possibilidades infindáveis. Far-se-á sempre história, mas poder-se-á cunhar na sociedade algumas das bandeiras e ideias de Esquerda sonhadas em Abril, estando muitas em risco, outras longe de ter sido postas em prática. Falo da defesa do Serviço Nacional de Saúde, do Ensino Universal e gratuito, do direito à habitação, do direito ao trabalho digno e com direitos, do combate às desigualdades…
Caso a Esquerda ganhe as próximas eleições com uma maioria de 2/3, pode até por iniciativa própria fazer uma revisão constitucional que proteja ainda mais as pessoas, desta cada vez mais sinistra rede de interesses, que parece querer apostar num modelo de corporativismo, ao invés de um modelo solidário e cooperativo.

Quando a Esquerda é esclarecida une-se para eleger Presidentes da República ou para conquistar importantes Câmaras Municipais às mãos da Direita. Porque não fazer o mesmo para uma solução de Governação do país? Este é o ensejo próprio para se fazer história. Para construir uma real alternativa de governação de Esquerda. Todas as esquerdas estão convocadas para tal desígnio. Não temos o direito de defraudar o desejo da maioria do povo português. Queira desta vez a Esquerda ser verdadeiramente esclarecida.

Montijo
10 de Novembro de 2014
Miguel Dias

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Roubos de Dignidade

Não sei se tenho urgência, se tenho decência ou nenhuma das duas. O que sei é que não posso mais assistir impávido e sereno, enquanto esta corja afunda fundo no meu bolso e leva o resto da minha dignidade. Há tempo demais que me andam a explicar que vivo muito acima das minhas possibilidades. Por isso mesmo diminuíram o meu salário, aumentaram os impostos e cortaram as prestações sociais. E eu “ajustei”. Nem tanto à grande e à francesa; mais à bruta e à alemã! E é incrível como isto tem facilitado o cumprimento escrupuloso dos meus compromissos nos últimos anos.
Estou certo que com a maioria de nós aconteceu o mesmo. Poderá ser este o tal milagre económico que algumas vozes alvitram? Ou se calhar somos todos personagens daquela famosa série “A vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor!”
De indicadores que nada indicam estamos todos fartos. Foram discursos vazios e promessas vãs que nos conduziram ao actual labirinto. Um labirinto onde seguimos o ténue cheiro a queijo, fazendo o caminho que nos está a ser traçado pelos interesses instituídos e pelos mais ricos da “estranhamente solidária” União Europeia.
Mas há alternativa! Há sempre alternativa. Forçar as paredes do labirinto e encarar a liberdade. Este esforço tem de ser conjunto, pois não é fácil encarar a liberdade. Não é simples descobrir que temos escolha. Que a ideia que nos vendem do fatídico caminho único e austero pode ser sempre contraposta pela ideia do caminho mais solidário. O caminho onde os mais fortes ajudam os mais fracos; em que lhe lançam a mão amiga ao invés de uma bota cardada…
Este terá de ser o caminho que levará os PIGS a saírem da pocilga da crise e da austeridade em que se vêm atolados. O tempo em que estes concertam uma estratégia comum, para um rumo alternativo da União. A hora em que se contrapõe o crescimento sustentável ao desmesurado; o momento em que finalmente se compreende que a defesa de todos os europeus, da sua dignidade, é mais importante do que os lucros de 3 ou 4 multinacionais.
Não sei se tenho urgência, se tenho decência ou nenhuma das duas. Sei que o tempo de começar a fazer alguma coisa já passou. Sei também que nos iniciámos com ele e que temos feito o nosso percurso incansavelmente. Também sei que somos poucos e precisamos que muitos mais se juntem a nós; todos os que partilham da ideia que é necessária uma onda de fundo progressista para abalar os alicerces destas políticas suicidárias. Pelos vistos até sei algumas coisas… Mas tenho plena consciência de que é muito mais o que desconheço. Por isso preciso, precisamos, desta União. Deste grupo que nos permite elaborar uma alternativa credível baseada na salvaguarda de cada indivíduo, almejando uma Europa mais solidária, um crescimento ambientalmente responsável e um entendimento bem claro que ser de Esquerda é amar a liberdade e defender a humanidade; e entender que a necessidade de circunstância, nunca poderá comprometer a substância. Para que cessem, de uma vez por todas, os roubos de dignidade…

Montijo, pela manhã do dia 25 de Outubro de 2014 

sábado, 11 de outubro de 2014

MCM | Movimento Cívico Montijo - O Manifesto / 1.ª Iniciativa





Amanhã, dia 12 de Outubro pelas 15 horas terá lugar a 1.ª acção do MCM. Será uma caminhada pela cidade do Montijo com o intuito de sinalizar pontos para futura intervenção cidadã. O local de encontro será o Coreto da Praça da República. Queira o tempo ajudar. Identificar prioridades e em conjunto pesar Montijo.
MCM - juntos por mais e melhor Montijo!


MANIFESTO
O Movimento Cívico Montijo (MCM) surge da reunião de um grupo de cidadãos que têm em comum um espaço geográfico, que é simultaneamente uma paixão e um motivo de preocupação – o Montijo.
O objectivo do MCM é contribuir para a melhoria do território, através de acções simples e executáveis sem qualquer encargo financeiro para os participantes. Apenas é solicitado algum do tempo livre de cada um e o empenho necessário à prossecução das tarefas.
O MCM pautará a sua conduta pela realização de iniciativas que visarão uma melhoria efectiva na qualidade de vida da população do Montijo.
Todas as acções levadas a cabo pelo MCM serão divulgadas publicamente; de forma atempada e programada. Assim sendo, estaremos sempre de portas abertas à participação dos populares que desejem fazer parte das mesmas, pois apenas com a participação activa da população de Montijo, este Movimento poderá ser uma realidade.
Em suma, o MCM conta com todos os montijenses que pretendem fazer da antiga Aldeia Galega do Ribatejo um espaço melhor para viver e trabalhar. O facto de residirmos numa terra com 500 anos de história, não implica vivermos na Idade Média.
O percurso que agora se inicia será sinuoso e contará com alguns obstáculos levantados pela habitual inércia do nada fazer. Mas estamos certos que ainda restam muitas pessoas que conhecem o potencial que o Montijo encerra e que pretendem tirar o melhor partido do mesmo, para si e para as gerações vindouras.
Para memória futura, o MCM manterá um registo audiovisual de todas as iniciativas que promover, que posteriormente será difundido pelos canais mais apropriados para o efeito, evitando desta forma que o tempo apague o esforço de todos os montijenses que abraçarem esta causa.
Juntos por mais e melhor Montijo. É tempo de dar as mãos e lutar pela nossa Terra.
Montijo | Setembro de 2014
Os Promotores:
João Carlos Peres | Luís Bordeira | Miguel Dias

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Meu filho perdeu um professor...

Ainda não havia começado o ano lectivo e o meu filho já tinha perdido um professor. Cedo se percebeu que afinal tinha perdido dois… Nada de grave, segundo a tutela. «Um erro apenas. Pedimos desculpa e asseguramos que a normalidade será retomada dentro de momentos.»
Formalizado o ridículo lamento e elaborada nova listagem de docentes, meu filho descobriu que afinal agora tinha perdido três professores! Gentes de Coimbra ou de Vila Real, que após terem andando com a “casa às costas”, num autêntico contra-relógio logístico para estarem devidamente instalados para o início do ano lectivo, vêm vedado o direito ao trabalho e aberta a porta da incerteza. Pessoas e vidas concretas que se viram forçadas a optarem entre a sua residência ou a sua vocação para leccionar. A isto o iluminado Secretário de Estado da Educação Casanova responde que compreende a situação, mas afirma que legalmente não existe nenhum mecanismo que possa defender estes professores e compensá-los de todos os imponderáveis. Diz que há sempre a via judicial… Como se alguém a quem acabam de abrir a porta do desemprego ou perpetuada a indigência precária pensa-se em recorrer ao Tribunal.
Meu filho perdeu um professor, não dois, perdão três. E parece que é um sortudo. Ao invés, turmas existem no seu agrupamento que têm colocados apenas três professores. Alguns agrupamentos voltaram a fechar e outros ainda nem abriram. Mas o que nos ensinam estas intermitências? Que a precariedade veio para ficar. Que a aposta em descredibilizar a escola pública é bem real. Que as nossas crianças e jovens não votam, logo não contam. Que os pais sempre se remedeiam ou não fosse o “desenrascanço” uma “virtude” nacional. Que a educação é um privilégio.
Desenganem-se aqueles que pensam que o problema está apenas no corpo docente. O pessoal auxiliar é cada vez menos e multiplica-se em esforços para satisfazer todas as solicitações. Esta é outra pecha no sistema educativo. Primeiro veio a desregulação do pessoal não docente e a sua precarização, depois o “ajustamento” dos quadros, agora o desprezo total. Como se uma escola para funcionar condignamente, com um corpo docente empenhado em ensinar os nossos filhos, fosse uma espécie de teatro divino espectralmente ensaiado, uma obra do acaso.
Tudo isto é orquestrado por um sinistro Ministro da Educação que em tempos falava com ódio dos burgueses e agora aposta no «aburguesamento» da escola pública. A pretensão que as escolas funcionem como empresas ou o cheque-ensino são exemplos disso mesmo. Ideias que até mereceram honras de «guião» por parte do Vice-Primeiro-Ministro. Crato diz apostar num modelo de disciplina e rigor para a escola pública, que não consegue implantar no seu próprio Ministério. Patético…
Meu filho perdeu um professor, não dois, perdão três. Um acho que foi avistado no Algarve, outro nas Berlengas a ensinar matemática num santuário de aves marinhas. O terceiro está em parte incerta. As Direcções dos agrupamentos não sabem o que fazer, obrigadas que estão a assinar de cruz estranhos despachos que as oficializam como responsáveis de situações que não criaram. Ouvem os berros dos pais, o desespero dos professores e vêm frustrados os seus esforços para ensinar e orientar os nossos filhos, tornando-os pessoas apetrechadas das ferramentas necessárias para «ler e calcular» o Mundo. Essa que deveria ser a tarefa mais nobre da escola perde-se no empecilho burocrático, no erro, na incompetência ministerial.
Evidentemente, que os erros no sistema educativo não são de agora. Começaram antes deste Governo e continuaram após o mesmo. Mas o caminho que estava a ser trilhado até há meia dúzia de anos da progressiva melhoria qualitativa da escola pública está agora a desaparecer debaixo dos nossos pés. Esse caminho estava a ser construído em conjunto com os trabalhadores docentes e não docentes que em troca viram “descategorizadas” as suas funções e aumentada a sua precariedade. Chegando-se ao cúmulo de existir agora um tratamento desigual entre professores, sendo uns qualificados tacitamente e outros propostos a exame.
Meu filho perdeu um professor, não dois, perdão três. Possivelmente pela manhã quando chegar à escola descobrirá que perdeu mais alguns. E eu dissertarei sobre que país é este, que quer ser desenvolvido e moderno e que não cuida da educação dos seus mais novos. Que não cuida do seu próprio futuro. Que não defende a educação e muito concretamente a escola pública, universal e gratuita, como pilar essencial do progresso e desenvolvimento que se alvitra.
Meu filho perdeu um professor, não dois, perdão três. Mas descobriu que seu futuro está na charcutaria, pelo seu vil contributo na alimentaçãoda «salsicha da educação», segundo definição do eloquente Primeiro-Ministro. Meu filho é presentemente um enlatado! Só espero que o futuro não o transforme em entalado…
Montijo, 7 de outubro de 2014

sábado, 27 de setembro de 2014

Qual o Preço das Nossas Vidas?

Passaram pouco mais de 3 anos do dia em que descobrimos que o país estava para fechar. Com base nessa ideia, Portugal entrou em fase de liquidação. No fundo vendia-se um país inteiro, com pessoas a sério lá dentro, a preço de saldo. Para evitar esse destino foi negociado um empréstimo extremamente lesivo para os interesses nacionais, com uma troika cuja legalidade é altamente suspeita.
Depressa percebemos que era tudo bem baratinho. Bastava baixar os nosso ordenados, devolver a precariedade às nossas mulheres, os nossos filhos não ter professores e os nossos pais verem cortadas as reformas... E assim foi. E assim continua a ser. Mesmo depois da troika sair, foi-nos prometido que a sua presença continuaria por algumas décadas. Os mercados ficaram logo mais descansados e as pessoas mais desesperadas. A célebre dicotomia o Portugal está melhor, os portugueses é que estão pior.
Mas nada que uma bela operação de charme não resolva. Foi anunciado com pompa e circunstância, o aumento do salário mínimo para €505,00. Pouco importa se esse era o valor (acrescido de uma bonificação de €5,00) que deveria vigorar desde Janeiro de 2011, ou seja quase 4 anos atrás, rasgado que foi o acordo de concertação social assinado em 2006. Mais uma vez se realça o cumprimento das obrigações tão propalado pelo executivo... Mas apenas quando os compromissos são internacionais. Para o povo português a relação de confiança pode ser olvidada vezes sem conta que pouco importa.
Este recente acordo é conseguido à custa de uma redução da TSU para os empregadores de 0,75%. Isto quer dizer que foi preciso lançar uma cenoura aos patrões para conseguir um ridículo aumento que só peca por tardio, num ordenado mínimo miserável. Mas esse valor reduzido na TSU será injectado na Segurança Social através do Orçamento de Estado. Mais uma vez pagamos todos e os de sempre passam entre os intervalos da austeridade. Tenho vergonha de dizer que o dinheiro das minhas contribuições ajudam a perpetuar o "escravizante" Salário Mínimo Nacional.
Faz-se passar a ideia, que este acerto na TSU beneficiará principalmente as micro e pequenas empresas. Nada mais falso! O valor que empresas poupam com esta medida não chega aos €4,00 por funcionário ao mês (como dizia o outro é fazer as  contas). Duvido muito que sejam valores destes que dêem a necessária folga de tesouraria. Em contrapartida os grandes empregadores podem ter aqui um encaixe interessante.
Bastava que este acordo envolvesse outras premissas para que o aumento pudesse chegar facilmente a 40 ou 50 euros. Se em cima da mesa fossem colocados os verdadeiros custos de produção, isto é os custos energéticos e de transportes, estou certo que todas as confederações patronais estariam muito mais dispostas a negociar. Mas falar em baixas de custos energéticos é assunto tabu, pelo menos desde o abandono do Álvaro... Os grandes interesses confortam-se e protegem-se, numa tocante manifestação de solidariedade financeira. 
«Mas olha que €20,00 é melhor que nada...» Ora cá está a "la paliceana" verdade! Depois de anos a fio a diminuir o poder de compra dos trabalhadores, esta afirmação é escandalosa. Anos em que inclusive, alguns grandes grupos económicos aumentaram os seus lucros. Seria pedir muito contribuir um pouco mais para a sociedade, conseguindo-se um aumento do salário mínimo para um nível um pouco mais dignificante? Convém não esquecer que sem dinheiro o povo não consome e um dia o "milagre" das exportações cessa e aí o que farão as nossas empresas?Atenção que o que me choca não é o aumento do salário mínimo em €20,00, mas o facto do mesmo ter ficado congelado quase 4 anos!
A austeridade é a principal responsável pelo aumento das desigualdades e disparidades salariais. Em épocas de crise, as pessoas parecer ser algo descartável. A pressão sobre o mercado laboral é grande demais e assim o determina. É vulgar dizer que uma vida humana não tem preço. Em Portugal, pelos visto, são mais ou menos €20,00...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A VIOLÊNCIA VERBAL E O DISCURSO DO VAZIO


“Os homens não têm de ser verdadeiros, têm de fazer sentido.”


O subtítulo está entre aspas porque não é meu… É uma frase “roubada” a André Barata, constante na sua obra Intimigrafia. Não conseguiria de forma alguma transcender-me a tal ponto, pois sou demasiado mundano e agarrado à realidade.
Embora numa primeira leitura esta máxima me parecesse desprovida de lógica, numa observação mais atenta reconheci-lhe uma coerência própria. Com efeito, a descodificação deste conceito leva-me à conclusão de que os homens (ou mulheres) deverão ou ser verdadeiros ou fazer sentido. Dificilmente os homens que forem verdadeiros não farão sentido, pois é algo inato à própria condição. Mas fazendo sentido não quer obrigatoriamente dizer que serão verdadeiros. Até na falsidade pode haver coerência…
Na sociedade actual pululam os exemplos em que não é respeitada nenhuma destas regras. A incoerência é tomada como uma espécie de placebo para todos os males. Os diferentes pesos normalmente usados para quantificar problemas análogos fazem multiplicar a quantidade de balanças, embora a unidade de medida seja invariavelmente a mesma – a violência. Venha ela na forma física ou verbal.
Se na sua forma física, a violência tem sido criticada pela generalidade da sociedade, já a forma verbal é estranhamente tolerada. Talvez no medo constante da cartada da censura ser lançada sobre a mesa. Mas a condescendência com este tipo de reacção faz-nos cúmplices do acto vil que é perpetuado.
O combate ideológico é nobre. O confronto de questões e soluções é fulcral na criação de modelos abrangentes que visem o progresso social. Mas até que ponto a opinião vazia, o discurso desprovido de conteúdo pode ser encarado como positivo num debate que se quer profícuo? Será realmente correcto apelidar de censura o apontar o dedo a estes “sabotadores” ideológicos? A sua retórica resvala invariavelmente para o populismo, a demagogia, o ataque pessoal. Esse é um péssimo serviço à Democracia e um atentado à Liberdade de Expressão.
A violência verbal é, provavelmente, aquela que mais agride. Não falo somente dos impropérios ou injúrias. Com o ataque pessoal é fácil lidar – meter para as costas e continuar o caminho. Agora com o afrontamento ao intelecto por parte do vazio, com a passagem de certificados de ignorância, com a ostentação de uma pretensa superioridade intelectual, já se torna mais difícil. É fundamental parar este discurso verborreico. Pactuar com estes actos não deve fazer parte da filosofia de vida de alguém, por mais que digam que se comprará mais guerras do que se tirará proveitos. Aguentar pacificamente estas atitudes, não é uma opção. Desmascarar a mentira e enfrentar a incoerência deverá ser uma preocupação de toda a sociedade.
Aqueles que eternizam uma discussão até ao fastio sem apresentarem ideias ou tão-somente um fio condutor, nada contribuem para o esclarecimento das inúmeras questões com que a sociedade moderna se depara. Desta forma, violam os princípios do debate honesto e enriquecedor. Estamos perante pessoas que se pautam por uma conduta que certamente não é verdadeira e muito menos faz sentido. Não respeitando qualquer das categorias enunciadas, que espaço poderão ocupar na condição humana?

15 de Agosto de 2014

Miguel Dias