domingo, 17 de maio de 2015

Tempo à Cidadania

São todos iguais!” Esse é hoje em dia o mote para uma análise “séria” do panorama politico-partidário nacional. A descrença e a dúvida nos políticos, sentimento da generalidade da população, afasta o eleitorado do processo democrático e enclausura-o numa liberdade que já não espelha os princípios de Abril.
É certo que Portugal progrediu nos 41 anos de democracia, mas a potencialidade que o país encerra é sem dúvida superior ao patamar que alcançou. E nos últimos tempos assistimos a um fenómeno regressivo; uma marcha atrás civilizacional.
O afastamento entre o povo e os órgãos e instituições do Estado é cada vez mais notório. Tal sucede porque as pessoas já não se revêem no sistema. A democracia representativa deixou de representar a maioria, que simplesmente se abstém de participar nos sufrágios, abrindo mão de um direito tão arduamente conquistado. A cidadania activa é hoje residual.
É urgente reverter este processo, que abre portas a outras formas de regime já conhecidos do passado e que deixaram vincadas nas páginas da história as suas atrocidades. Isto só pode ser feito aproximando a política do cidadão. E nesse ponto os primeiros a dar o passo terão de ser os próprios partidos políticos. Estes devem abrir as suas portas ao cidadão e cidadã comum, incentivando ao exercício político todo/a aquele/a que assim o desejar. Mas esse convite terá de ser genuíno e não uma forma de propaganda. Ouvir as pessoas e conquistar as boas ideias para os programas políticos, realizar primárias abertas para escolha e ordenação das listas a eleições ou abrir a maioria das reuniões políticas à população, são alguns simples exemplos, todos eles vertidos na candidatura cidadã LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR.
Apesar da simplicidade das propostas, isto não significa que sejam fáceis. Implicam trabalho e seriedade. Implicam um compromisso de integridade. Mas são, sem dúvida, essenciais se pretendermos reverter a tendência actual, devolver credibilidade ao processo político e salvaguardar a nossa vivência democrática.
Cabe às forças políticas demonstrar que nem todos são iguais. É Tempo de dar o exemplo...

Montijo, 11 de Maio de 2015
Miguel Dias


Em pé... de igualdade

Existe uma certa promiscuidade saudável na candidatura cidadã LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR. As pessoas mais mediáticas, que dão a cara pelo movimento, sentam-se à mesma mesa com os anónimos que abraçaram esta ideia. Todos têm voz e respeitam-se mutuamente. Não entram em linha de conta rankings de posição social, etários, de origem ou percurso político. Simplesmente se esgrimam ideias e se lançam pontes para entendimentos. Tenta-se chegar a um programa político representativo do que o Movimento defende e dos anseios da população.
Neste aspecto, todas e todos estão em pé de igualdade. A participação da cidadania é promovida e desejada. Só assim poder-se-á chegar àqueles que têm vivido sobre o constante terrorismo governativo dos últimos anos. Aqueles que até ouviram falar de um guião de reforma do Estado, mas não faziam ideia de que eram os personagens principais nesta tragédia, até porque nem compareceram ao casting... A sociedade está sitiada, pelos juros da dívida, pela precariedade, pela pobreza, pelo desmembramento do estado social. Não podemos continuar a sentir esta impotência perante o retrocesso civilizacional que temos assistido. A serenidade do povo não pode ser chamada à baila quando está em causa a sua própria sobrevivência. Mais que o direito de resistir temos o dever de cidadania de proteger o que 40 anos de democracia têm vindo a construir.
A perspectiva de que podemos ter uma sociedade mais justa e equilibrada, honrando compromissos externos e internos, não deve ser vista como uma utopia mas antes como uma necessidade. Não se pode solicitar todos os sacrifícios e mais alguns a um povo tão fustigado pela austeridade, ao mesmo tempo que não se exige nada de quem em tempos de crise multiplica lucros, seja através de posições monopolistas que detêm, seja através do maravilhoso mundo da alta finança, onde o afundar e resgatar de pequenas economias nacionais se transformou num negócio altamente rentável.

Só através de um esforço conjunto de todos e todas e na aposta numa candidatura que se apresenta como diferente, tanto na sua organização como na forma de construir o programa, se pode almejar o tal objectivo de travar a austeridade e incentivar o progresso. Para que as pessoas que continuam teimosamente de pé continuem a viver dessa forma e possam ajudar as que entretanto caíram. Com a firme de convicção que não há altas esferas, nem pode haver qualquer tipo de discriminação; apenas igualdade. Pois por este burgo, também temos uma Lista VIP e nela cabem dez milhões de pessoas.
Montijo, 24 de Abril de 2015
Miguel Dias

Despir a camisola

Ponderei bastante antes de escrever estas linhas. Não é um assunto fácil de abordar, pois está envolto em alguma polémica. Mas como já se respira Abril decidi avançar, uma vez que este caso é atentatório das liberdades e direitos conquistados. Não escrevo como homem; nem como mulher. Escrevo como ser humano e como cidadão. Isso é importante frisar.
Quando alguém demonstra grande empenhamento no seu trabalho é vulgar usar a expressão “vestir a camisola”. Ora no caso das profissionais de saúde do Hospital de Santo António e do Hospital de São João o caso é literalmente o contrário. Não falo directamente da vertente laboral, antes das sessões de saúde ocupacional, onde as mães de crianças com mais de um ano de idade que tenham ainda direito a licença de amamentação são incitadas a fazer prova desse mesmo direito, espremendo o leite das mamas frente aos médicos. A notícia do Público do passado dia 19 de Abril de 2015 não deixa margem para dúvidas. Um trabalho jornalístico fundamentado, com fontes e afirmações de ambos os lados da barricada. Infelizmente isto é real e passa-se no Portugal do século XXI.
É difícil definir a quantos níveis isto me repugna... Evidentemente que não podemos passar ao lado do grave problema de falta de profissionais nas unidades hospitalares e centros de saúde. Não fosse esse o pano de fundo e julgo que dificilmente teríamos administrações hospitalares a tomar medidas como que saídas do tempo da inquisição. No entanto, tal não pode ser justificativo para estes episódios. Esta actuação é um atentado às liberdades fundamentais e uma humilhação brutal da condição feminina. É ultrajante que se exponha assim um ser humano, somente para se conseguir perceber se a mãe tem ou não leite. Até porque o simples facto de se perceber que a progenitora tem leite, não obriga a que se conclua que a mesma está a amamentar...
Também não pode ser justificação a ideia generalizada e muito mal fundamentada, pois parte apenas de vox populi e não de factos concretos, de que muitos dos atestados que as mães apresentam são falsos. A lei determina que sejam apresentados atestados médicos mensais comprovando que a mulher continua a amamentar a criança para além do ano de idade. Se esses documentos são falsos, que se culpem os prevaricadores. Mas não se promova uma caça às bruxas gratuita e humilhante. Existem outros meios de fiscalização menos medievais, como por exemplo através de análises clínicas.
Entristece-me o facto de perceber que a maioria dos homens não consegue entender que as mulheres se sentem violadas na sua intimidade perante um procedimento deste género. Julgam que tudo é justificável para achar uma vigarista. Que no fundo as mulheres querem é estar no bem-bom, com o horário reduzido em duas míseras horas durante mais um tempinho; e para evitar esses abusos, tudo é justificável! Normalmente esses são também os homens que não se lembram de ajudar nas tarefas domésticas, o que implica que as mulheres trabalhem muito mais em casa do que as duas horas em que vêem o seu horário encolhido. Perante tal disposição, a mim só me resta “despir a camisola” do machismo moderno, afirmando a minha solidariedade para com estas mulheres.
Todo o ser humano deve condenar qualquer forma de perseguição individual e o país de Abril, que agora completa 41 anos de liberdade, já deveria ter aprendido essa lição.
Montijo, 23 de Abril de 2015
Miguel Dias

Ser Humano

Realidade e Ilusão


Frequentemente lá me perguntam o que é que consideraria um bom resultado para a candidatura cidadã LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR no círculo eleitoral de Setúbal. Respondo o óbvio... Um bom resultado seria ganhar. Depois pedem-me para ser realista. Aí replico que a realidade é o que se tem passado por essa Europa fora, com novos partidos e novas lógicas organizativas, que têm conquistado votos e até ganho eleições. No nosso cantinho é que ainda vivemos na ilusão. E ao que parece não queremos acordar.
Recentemente, mais um choque de realidade nos tentou despertar. A taxa de desemprego voltou a subir para cima da barreira dos 14% no mês de Fevereiro. Descobrimos ainda que afinal a taxa adiantada pelo INE relativa ao mês de Janeiro era erradamente optimista e não por um ou duas décimas, mas por 0,5%. Para os mais incautos relembre-se que se estivermos a falar de uma população activa de, grosso modo, 5 milhões de indivíduos, esses 0,5% correspondem a 25.000 pessoas. Para além disso também se descobriu que o desemprego não diminuí de Dezembro de 2014 para Janeiro de 2015, ao contrário do que foi anunciado na altura. E isto, ao invés de nos acordar, embala-nos ainda mais nesta dormência ilusória.
O desemprego jovem, por seu turno, não tem conhecido intermitências fixando-se em Fevereiro de 2015 nos 35%. Tem sido sempre a subir! O que não deixa de ser estranho, já que grande parte da nova emigração é precisamente constituída por jovens em idade activa. Esta é mais uma faceta de realidade que enfrentamos no “mercado laboral”.
Acrescem as recentes alterações de legislação que desvirtuam a contratação colectiva e aumentam a insegurança no trabalho e a precariedade. A isto chamam “flexibilidade laboral” e dizem que é bom para a nossa economia... Tal como a obsessão na descida dos custos unitários do trabalho, que fez com que as remunerações de muitos trabalhadores recuassem a valores da década transacta. Voltamos à máxima Montenegrina “a vida das pessoas não estar melhor, mas o país está muito melhor”.
Existe ainda uma enorme fatia de desempregados de longa duração e uma cada vez maior franja de pessoas que, pura e simplesmente, desistiu de procurar trabalho. Cedeu à desesperança... E essas, já nem contam para os números do desemprego. Escusado será dizer que toda esta tumultuosa relação que o Governo tem com o emprego, a quebra da contratação colectiva, o aumento da insegurança e da precariedade, a desvalorização salarial, são factores que pesam muito na estrutura da segurança social, já de si fragilizada e sempre posta à prova em alturas de crise. Este é um dos lados perversos da “flexibilidade laboral”.
Em suma, fica aqui patente uma das parcelas da nossa realidade, do nosso quotidiano. Um dos exemplos que esta austeridade nada tem de rigor, mas transborda terror social. No entanto, há uma resistência enorme em percepcionar a realidade pela maior parte de nós. Talvez tal posição se deva ao receio que temos de que ao renegar a ilusão a que estamos subjugados, a realidade nos possa apanhar. E como diz o escritor Mário de Carvalho – “a realidade é muito absurda”. Mas continuar a viver num estado de dormência, apenas desejando com todas as forças que a realidade não nos desperte, qualquer dia pode já não ser suficiente. E aí, talvez tudo se torne ainda mais absurdo...

Montijo, 2 de Abril de 2015
Miguel Dias


domingo, 19 de abril de 2015

De peito aberto

Se há algo que sempre me atraiu no LIVRE, para além dos seus pilares e princípios, é a sinceridade, abertura e honestidade com que se faz o debate político. Isso é algo inestimável. Enfrento a política como todas as outras facetas da minha vida – de peito aberto. Pronto a ouvir todos os contributos, concordando ou contrapondo, mas na firme convicção que tudo se faz sem alçapões. Um diálogo franco e profícuo baseado no respeito mútuo e no acreditar. Só assim podemos construir algo novo no panorama político. Um movimento partidário transparente e plural, mas onde a confiança entre membros terá de ser condição indispensável para que tudo flua da melhor maneira.
A alternativa a este caminho foi o que nos conduziu ao actual estado de coisas. A desconfiança  que produz estruturas partidárias rígidas e intolerantes e uma falta de diálogo que forma feudos e perpetua sectarismos...
Chegados a este ponto, não podemos de forma alguma deixar-nos cair no mesmo erro. Temos de continuar a construir um partido democrático e plural, sempre no respeito pela opinião alheia, afirmando também aí a nossa diferença. Se nos quedarmos pelas meias palavras e pelas aparências corremos o risco de contrariar tudo o que temos vindo a defender.
Isso é especialmente importante na relação externa. Ninguém disse que a convergência ia ser fácil. É necessário fomentar um relacionamento saudável entre todas as partes, com a certeza de que a união que se pretende apenas se pode edificar com base na sinceridade. Lembremos-nos que falhar não é uma opção. Somos uma espécie de cobaias para entendimentos à esquerda. Este teste é fulcral para perceber se há ou não futuro numa união progressista que marque a agenda política nacional. O sucesso desta empresa pode abrir portas a que outras forças se juntem a este movimento. Aí será possível fazer muito mais do que imaginamos.
Por outro lado, todos estávamos avisados para os perigos que encerrava a abertura total de um projecto político. No quadro actual de descontentamento com os partidos em particular e os políticos em geral, ficamos sujeitos a que os ditos cidadãos independentes que vão aparecendo extremem o seu discurso e tentem tomar de assalto o LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR. No fundo é uma espécie novo sectarismo popular, onde não há espaço para os filiados nos diversos movimentos que constituem esta candidatura. Temos de estar particularmente atentos a este tipo de acção, que promove a discriminação entre subscritores. O preceito é de que todos estamos em pé de igualdade e isso tem de incluir os alinhados com determinada força e os independentes.
Mesmo com todas as condicionantes, não quero perder o meu modo ingénuo de fazer política. Continuarei o meu percurso de peito aberto e penso que esse é o caminho a seguir. Na esperança que esta forma de estar na política influencie primeiro os que estão connosco e depois os demais. E que se construam as pontes para realizarmos utopias.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Placard

As coisas estão a mudar. Se calhar não tão rapidamente como desejávamos. Mas o nosso Portugal tem uma velocidade diferente. Quase como se o tempo tivesse uma dimensão paralela neste cantinho. Mas as diferenças vão-se notando, entre os agentes políticos e essencialmente nos seus discursos.
Ao que parece o monopólio da propaganda, que outrora se afirmava ser pertença do PCP, embora eu julgue que é uma percepção abusiva, deslocou-se para o centro e direita partidária. Com efeito, os chamados partidos do arco da (des) governação, na generalidade coincidente com o arco da corrupção, apropriaram-se da retórica vazia de conteúdo e plena de sound bytes. Temos sido inundados por pérolas do género. Desde o milagre económico, ao país está melhor os portugueses é que não, tudo serve para manter as pessoas na eterna expectativa. O suspense político é uma arma normalmente utilizada pelos que depois de esgotadas todas as ideias e nenhuma resultar, não sabem mais o que fazer.
Como é possível, por exemplo, que se fale de coesão social num país onde a austeridade brutalizou o contracto social. A relação de confiança entre cidadão e Estado está ferida de morte. E isto não é exclusivo das classes mais desfavorecidas. Também na classe média e mais abastada se sente uma profunda decepção pelo caminho escolhido por este Executivo.
O problema é que a jusante, nada de novo… O actual líder do PS elabora discursos com grande nível de erudição e cheios de opacidade. Com o nível exacto de cinzentismo para não se comprometer com nada. É difícil levar a sério um líder da oposição que apenas diz que não vai fazer como o Governo e que a austerirdade não presta, nunca concretizando uma alternativa. Isto leva-nos a pensar que quando ocupar a cadeira do poder será mais do mesmo com algumas nuances
Pior é que os meios de comunicação social fazem eco deste vácuo. Minam os seus painéis de comentadores com figuras do “centrão”. E mesmo os debates televisivos estão sempre pejados destas individualidades, salpicados aqui e além com alguém da real alternativa política. Foi o que aconteceu por exemplo no programa “Expresso da Meia-Noite”, na última sexta-feira dia 20 de Fevereiro de 2015 na SIC Notícias. Com o destacado Duarte Pacheco entre o painel, assistiu-se a uma autêntica acção de propaganda política, na defesa leal de um Governo que, em tempos de Democracia, atacou como nenhum outro a dignidade dos cidadãos. Na realidade, quase a totalidade do painel se uniu contra o discurso de inverdades desse senhor, que repetia incessantemente a meia dúzia de medidas que este Governo tomou para resolver o estado problemático a que o país chegou e cuja maioria ainda não deu provas de resultar (e que certamente nunca dará). A este estado de catarse, Ana Drago simplesmente observa algo semelhante a: “pronto não vale a pena; isto é como estar a falar com um placard”.
E é isso mesmo! Falar com estas pessoas ou com uma parede é exactamente a mesma coisa. Perdão, é muito pior… Pois as paredes, embora possam ostentar placards, não estão imbuídas de um fundamentalismo ideológico que redundou num fracasso em toda a linha, mas que esta pandilha insiste em aplicar. O povo, esse, leva com o placard a torto e a direito, como se merecesse alguma espécie de castigo pelas decisões políticas erradas dos sucessivos governos…
Mas a característica primordial de qualquer placard é que não replica, deixando sem resposta os anseios da população portuguesa. E mais tarde ou mais cedo, as pessoas vão-se fartar de falar com as paredes.
Montijo, 21 de Fevereiro de 2015

Miguel Dias

sábado, 14 de fevereiro de 2015

FALEMOS DE PESSOAS

Não é fácil gerir o dia-a-dia… A administração do quotidiano, dos sucessos e insucessos, pode ser exacerbante. À medida que calcamos caminho afiguram-se novos desafios que terão de ser enfrentados. Quando alguém conquista certos êxitos na sua vida e ganha uma posição de relativo destaque ou poder, as coisas tendem a complicar-se e não raras vezes essas pessoas descarrilam do trilho que escolheram. Existe a ideia pré-concebida de que à medida que uma pessoa “sobe na vida” deve deixar de dar importância a determinadas matérias. Questões menores, como muitas vezes são apresentadas. Eu acho o contrário!
Na verdade, é chegando a esse ponto que a nossa influência deve ser direccionadana ajuda ao próximo, tentando alterar o estado de coisas. Pelo menos no meio em que nos movimentamos. Se é frequente assistir por parte do cidadão comum a atitudes que defendem um bem maior e uma melhoria social, que será transversal à sociedade, quando esse mesmo cidadão “chega aotopo” facilmente esquece a defesa desses valores. Comummente transforma-se numa criatura egoísta e ensimesmada, onde os únicos desideratos serão a prossecução de objectivos pessoais e o benefício “dos seus” (familiares ou aliados de circunstância).
Mas esta generalização, embora tenha fundamento na vivência que experimentamos há várias décadas, não pode nem deve encobrir uma minoria que pensa de forma diferente; que vê a ascensão e o poder não como um fim em si mesmo, mas como uma forma de beneficiar toda a sociedade; que coloca o enfoque sobre a vertente social. Uma minoria que não vê o país como uma abstração numérica, no qual impera uma visão individualista e uma ditadura dos mercados. Portugal é de todos, mas este país, e suas elites governativas, não tem tratado todos de igual forma.
Assim, uma mudança de políticas onde o âmago estánas pessoas é necessária e urgente. Esta urgência não pode continuar a ser colocada em segundo plano relativamente a metas orçamentais, compromissos financeiros e exigências económicas, que nos são impostas por entidades externas isentas de qualquer pingo de solidariedade. O país tem vivido prostrado por tais imposições, sem oportunidade de se reerguer e de optarpor outro modelo económico, que aposte num crescimento sustentado (e sustentável) e onde existam mais remédios para além das exportações. A palavra competitividade, repetida até à exaustão no discurso político vigente, tem de ser substituída pela palavra complementaridade. Só assim fará sentido a inserção de Portugal no espaço europeu que se fundou solidário e tem deixado de o ser.
Só através da implantação de um modelo de desenvolvimento que cumpra os critérios constitucionais e que oriente a economia nacional para a população, podemos cumprir o compromisso primordial nas democracias modernas, que no fundo não é mais do que o contracto social que liga o Cidadão ao Estado. Se os compromissos são para cumprir, este é o mais importante de todos. Porque falamos de pessoas.

Montijo, 13 de Fevereiro de 2015
Miguel Dias